Individual
novembro, 2018—janeiro, 2019
Antiga galeria de arte do Sesc Sergipe, em Aracaju
curadoria de Vanderléa Cardoso
revisão de Íris Brito Lopes
A exposição individual Sempre Quis Ser Maria dispõe de um conjunto de cenas do cotidiano de três jovens transexuais (em ordem alfabética: Ara Sad, Maria Luísa Andrade e Thalia Miranda), revelando o que há de trivial e singular no espaço doméstico. Mais que demonstrar aquilo que existe de extraordinário ou de extravagante na vida privada, o projeto é um inventário de cenas e corpos em transformação, de três vidas que cruzam as normas de gênero diariamente. Aqui, a experiência está circunscrita ao lugar doméstico. Por isso que a exposição também demonstra quais marcas as personagens deixam no espaço e quais as semelhanças há em cores, formas e texturas das casas. Sempre Quis Ser Maria talvez seja lida como um outro mundo, um mundo duplicado, dentro do qual as personagens são frutos de um período histórico e, acima de tudo, do olhar que construí com cada uma. O mundo duplicado são as fotografias e as sequências escolhidas para materializar o projeto, que é a forma que encontrei de demonstrar a beleza e a singularidade da algumas experiências transexuais.
§
Texto crítico, por Sofia Favero
O trabalho Sempre Quis Ser Maria revela algumas questões interessantes. Se, por um lado, fala sobre as experiências trans em suas múltiplas possibilidades — por vezes subalternas, precárias e urgentes. Por outro lado, fala também sobre a idealizadora, Luís Matheus Brito, e sua relação com essa realidade. O modo que foi afetada pelas pessoas trans e seus contextos de vulnerabilidade expressa sua implicação com o tema da transexualidade, com as sujeitas fotografadas, com as personagens escolhidas. E tudo isso perpassa a escolha dos locais, as fotos, os objetos que compõem o cenário. Todos esses aspectos dialogam com uma proposta de colocar as identidades trans no centro de uma discussão que é sobre afeto, família, acolhimento, apoio e pertencimento. Dentro de uma esfera na qual essa população é sequencialmente expulsa do lar, sofrendo o recorrente abandono parental devido a suas identidades, Sempre Quis Ser Maria expõe o drama da vida íntima, a relação com a casa, com o bairro, com a vizinhança, os meios de performar feminilidade através de diferentes signos. Coloca em xeque a noção de que transexualidade é uma questão hospitalar. Questiona, afinal, quais mudanças são operadas no cotidiano doméstico após uma transição de gênero? De que maneira o chão, as paredes e até mesmo os varais adquirem outros significados? Se trataria, aqui, de um deslocamento do corpo para as “coisas”? De pensar como os utensílios de uma casa dialogam com uma visão de “eu” que extrapola o binário “interno/externo”? E por que não colaborar com essa potencialização das identidades trans? Com essa fuga da clínica para a sala, o quarto, a cozinha, a varanda, o quintal. É por essa via que o trabalho se norteia, fazendo pensar sobre gênero, sobre raça, classe e desejo. Porque, no fim, também trata-se de querer. E muitas foram interpeladas pela violência porque quiseram — e porque ousaram — ser Marias. Sempre quis.
§
Portal Infonet: Exposição fotográfica Sempre Quis Ser Maria ocorre dia 29 (novembro, 2018).