https://www.quandodeusmandouachuva.com/
Pesquisa e curadoria
Dayanne Carvalho
Edição
Luís Matheus Brito
Revisão
Dayanne Carvalho e Luís Matheus Brito
Em prol da ruína
O processo de reportagem que culminou no livro Quando Deus mandou a chuva que molhou a terra, de Dayanne Carvalho, teve outros desdobramentos. Um desses desdobramentos é a acumulação de arquivos fotográficos das personagens — álbuns de família ou da Paróquia Santa Luzia, cujo valor inaugural tem a ver com a construção de uma intimidade, de narrativas íntimas que só podem dizer respeito aos membros das respectivas famílias, exceto no segundo caso, que é um arquivo mais ou menos público e permanece sob os cuidados de uma dessas personagens, a Josefa do Carmo ou Carminha, na Colônia Treze.
Não é por acaso que o arquivo pessoal de Carminha se confunde com o arquivo da paróquia. Responsável pelos cuidados de Padre Almeida — ou Joaquim Antunes de Almeida — na última década de vida, Carminha é a mulher que, no início deste arquivo, aparece em quatro retratos na vertical e em dois retratos ao lado do padre na horizontal. As imagens indicam uma intimidade que fiel e sacerdote mantiveram, ao mesmo tempo que dão suporte ao primeiro capítulo de Quando Deus mandou a chuva que molhou a terra. Nessa parte do livro, conhecemos o padre por meio das lentes de Carminha, mas, aqui, podemos vê-los em espaços distintos, como sujeitos independentes um do outro, sem mediações.
Talvez um site dedicado ao arquivo fotográfico de Quando Deus mandou a chuva que molhou a terra seja compreendido como um elemento auxiliar, complementar, cumprindo a função de acessório da obra que o antecede. Mas a maneira mais honesta de assimilar esse conjunto de imagens é como objeto que salvaguarda alguma autonomia. Aqui as imagens narram por si só. E essa narrativa já não depende dos vínculos que as palavras estabelecem entre si. Neste caso, a sintaxe é distinta e, em vez de somar uma frase com outra, soma uma imagem com outra. É uma tarefa de justaposição.
Uma vez que as imagens representam um passado cada vez mais distante, outro valor se incorpora a elas. É o valor de ruína, que pode ser observado na precariedade com que algumas fotografias são conservadas. Elas se modificam por conta de fungo, umidade e outros elementos estranhos, como fitas adesivas sobre as superfícies. Para o álbum de família, isso pode representar algo desagradável. Para este projeto de arquivo fotográfico, porém, é um valor imprescindível. É na ruína que a fotografia, como disse Susan Sontag¹, aproxima-se da arquitetura. As duas linguagens se beneficiam do tempo, na medida em que conquistam uma espécie de beleza. E triunfam.
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[¹] Sobre a fotografia, de Susan Sontag (tradução de Rubens Figueiredo; São Paulo: Companhia das Letras, 2004).