Um inventário de lugares, paixões e tempos está em formação em “Uma sessão no parque”, de Luís Matheus Brito, que se lança numa dinâmica labiríntica para compor os poemas. Dividido em prelúdio e três partes, o livro acumula um conjunto de imagens que, em vez de oferecer uma visão acurada, passa a camuflar, distorcer e rasurar a experiência, que, na maioria das vezes, está circunscrita à cidade de Aracaju. Daí a presença de nomes familiares para os moradores da capital sergipana, como “Avenida São Paulo”, “Cinema Vitória” e “Morro do Urubu”, que se transformam em títulos de poemas da primeira parte. No entanto, os nomes também se envolvem no trabalho de falsificação da poeta: “Para um nome vir à superfície/ e, aqui, ganhar corpo/ há uma substituição./ Um nome é escamoteado,/ lançado para os fundos,/ ficando, agora, fora de campo”, escreve Luís Matheus no poema de abertura, “De escanteio”, ao mesmo tempo que condensa parte das operações da obra. Em outras palavras, o que se manifesta em “Uma sessão no parque” tem a ver, acima de tudo, com o fora de campo das experiências — o lado da marginália, o lado do resíduo, que, uma hora ou outra, podem assentar os acontecimentos. As investigações de “Uma sessão no parque” comportam, inclusive, uma deriva em prosa na segunda parte, “Monólogo: onde estão os cavalos?”, na qual a perda de um amante coincide com a perda de uma biblioteca e de uma série de fotografias: “A princípio, escondi as fotografias de mim mesma. Quatro retratos nos quais posso vê-lo de modo distinto daquele como o vejo hoje. Para vê-lo à distância, como de costume, preservando o passado”. Em todo o caso, os textos de “Uma sessão no parque” querem preservar uma paisagem, por mais que seja a paisagem em uma fotografia: “— esta cidade, ela é a demonstração do conflito,/ sempre aparece, na dianteira, como o recorte/ para o qual se curvam os animais”, escreve a autora no poema “Faces de um cartão-postal”.
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De escanteio
Para um nome vir à superfície
e, aqui, ganhar corpo,
há uma substituição.
Um nome é escamoteado,
lançado para os fundos,
ficando, agora, fora de campo.
Sem estímulos à permanência.
Para um nome conquistar
o campo — e nele
fazer uma morada —,
uma força conquistou a outra.
Houve disputa ininterrupta
por espaço, por tempo.
Houve percurso para formação
de antagonismos, de rivais.
Quem, antes disso, dedicava-se
aos percursos opostos
faz parte, daqui para frente,
do conflito, sem o qual
não se faz o encontro,
a correspondência — os dois
não são nomes próprios.
Para desfazer a longitude,
um nome se agarra
ao outro nome, construindo
as sombras ao redor de si.
Juntos, eles chegam
— sem vacilação —
à hora do disparo.
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Número de páginas: 80;
Formato: 14 x 20 cm;
Revisão e posfácio: Lucas Ribeiro Rocha;
Capa, diagramação e projeto gráfico: Mário Vinícius;
Data de lançamento: 20 de fevereiro de 2026.